sábado, janeiro 21, 2012

Acordo ortográfico

Comprei, ao longo dos anos, livros cuja única utilização prática foi a de ajudar a preencher espaço em algumas prateleiras. O acordo ortográfico veio dar uma segunda utilidade àqueles que só serviram de decoração. Tenho dificuldade em ler o novo português.

"O Chalet da Memória", Tony Judt (II)

"Há comentadores bem pagos que são lestos a admoestar quem recebe o subsídio de desemprego quanto à baixeza da dependência económica, a impropriedade dos benefícios públicos e as virtudes do trabalho árduo. Deviam experimentar um dia"
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"Os que interiorizam o modo de vida designado «Ketman» podem viver com as contradições de dizer uma coisa e acreditar noutra, adaptando-se à vontade a cada novo requisito das suas regras, ao mesmo tempo que creem ter preservado em si mesmos a autonomia dos livres pensadores - ou, pelo menos, um pensador que escolheu livremente subordinar-se às ideias e imposições de terceiros.
Nas palavras de Milosz, Ketman «traz conforto, acalentando sonhos sobre aquilo que poderia ser, até uma vedação permite a consolação do sonho» Escrever para a gaveta torna-se um símbolo de liberdade interior. Pelo menos o seu público levá-lo-ia a sério, se o pudesse ler."
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"Milosz toma por garantido que o leitor conhece o estado mental do crente: o homem ou a mulher que se identificou com a História e alinhou entusiasticamente com um sistema que lhe nega a liberdade de expressão"
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"Hoje em dia ... o verdadeiro cativeiro mental dos nossos tempos está alhures. A nossa fé contemporânea no «mercado» segue nos mesmíssimos trilhos da sua sósia radical oitocentista [o marxismo] - a crença cega na necessidade, no progresso e na história. Tal como o infeliz chanceler trabalhista britânico entre 1929-1931, Philip Snowden, desistiu perante a Depressão e declarou que não valia a pena contrariar as leis inelutáveis do capitalismo, assim dirigentes da Europa de hoje se refugiam à pressa em medidas de austeridade orçamental para acalmar «os mercados»"

"O Chalet da Memória", Tony Judt (I)

"Hoje em dia, já quase ninguém aprende alemão. Parece ser consensual que a mente jovem só pode lidar com uma língua de cada vez, de preferência a mais fácil
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Creio que é revelador que de todas as minhas memórias desagradáveis da escola, a única inequivocamente positiva sejam os dois anos que passei em que me enfiaram implacavelmente a língua alemã. Julgo que não sou masoquista. Se me lembro de «Joe» Craddock com tanta afeição e apreço, não é por ele me ter incutidoo medo de deus ou por me pôr a analisar frases em alemão à uma da manhã, sob pena de no dia a seguir ser corrido a «És uma vergonha!». É porque ele foi o melhor professor que tive; e ser bem ensinado é a única coisa de que vale a pena lembrarmo-nos da escola
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Os meus anos 60 foram um pouco diferentes dos dos meus contemporâneos. É claro que também partilhei do entusiasmo pelos Beatles, pelas drogas leves, pela divergência política e pelo sexo (este mais imaginado do que praticado, mas também aqui creio que refletia a experiência da maioria, apesar de toda a mitologia retrospectiva)
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Cambridge, como é evidente, ainda não estava pronta para a revolução. Nem Londres: na manifestação tristemente célebre de Grovesnor Square, à porta da embaixada americana (uma vez mais, por causa do Vietname - tal como tantos outros contemporâneos, eu mobilizava-me prontamente contra qualquer injustiça cometida a milhares de quilometros), entalado entre um polícia a cavalo enfadado e a vedação do parque, senti algo quente e húmido a escorrer-me pela perna. Incontinência? Uma ferida sangrenta? Não tive essa sorte. Rebentara-me no bolso, uma bomba de tinta vermelha que eu tencionara atirar à embaixada.
Nessa mesma noite eu ia jantar com a minha futura sogra, uma senhora alemã de perfeito instinto conservador. ... já a alarmara saber que a filha namorava um desses de esquerda, sujos, que andavam aos gritos «Ho, Ho, Ho Chi Minh», que ela nessa tarde vira com desagrado na televisão. Eu, é claro, apenas lamentava que fosse tinta em vez de sangue."

sábado, janeiro 07, 2012

Esquerda com reticências

Quando um governo é, ou vem, da esquerda dou mais atenção ao que se diz na direita. Não poucas vezes, encontro críticas inteligentes e com as quais concordo sem reticências. Quando o governo é da direita, oiço a esquerda. A blogosfera de direita, na defesa cega da questão Pingo Doce, tentando omitir que a questão é o que foi dito pelo senhor Alexandre Soares quando o governo era PS, convence-me que o meu território ainda não deixou de ser a esquerda. Resta determinar se cheguei lá porque queria lá chegar.