quarta-feira, junho 15, 2011

Conquistado às primeiras linhas

"Da porta do La Crónica, Santiago contempla a avenida Tacna, sem amor: automóveis, edifícios desiguais e desbotados, esqueletos de anúncios luminosos a flutuar na neblina, o meio-dia cinzento. Em que altura se tinha fodido o Peru? Os ardinas vagueiam entre veículos detidos pelo semáforo da Wilson, apregoando os jornais da tarde, e ele começa a andar, devagar, em direcção à Colmena. De mãos nos bolsos, cabisbaixo, é escoltado por transeuntes que se dirigem, também, à Plaza San Martin. Ele era como o Peru, Zavalita, a certa altura, tinha-se fodido."

Mario Vargas Llosa, "Conversa n´A Catedral"

"Cemitério de Praga", Umberto Eco

"O inimigo, para ser reconhecível e temido, deve estar dentro de casa, ou à porta de casa. Aqui está o porquê dos judeus. A Divina Providência deu-os a nós [os russos], usemo-los, por Deus, e rezemos para que haja sempre algum hebreu que temer e que odiar. É necessário um inimigo para dar ao povo uma esperança. Alguém disse que o patriotismo é o último refúgio dos canalhas: quem não tem princípios morais envolve-se habitualmente numa bandeira, e os bastardos remetem-se sempre para a pureza da sua raça. A identidade nacional é o último recurso dos deserdados. Ora, o sentido de identidade funda-se no ódio, no ódio por quem não é idêntico. É necessário cultivar o ódio como paixão civil. O inimigo é o amigo dos povos. Faz falta sempre alguém a quem odiar para nos sentirmos justificados na própria miséria. O ódio é a verdadeira paixão primordial. É o amor que é uma situação anómala. Por isso, Cristo foi morto: falava contra natura."
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"Ouvi dizer que na Terra vivem mais de um bilião de pessoas [meados do século XIX]. Não sei como conseguiram contá-las, mas basta dar uma volta por Palermo para compreender que somos demasiados e já estamos a pisar os pés uns dos outros. E a maior parte deles cheira mal. Há já pouca comida agora; imagine-se se crescermos ainda mais. Portanto é preciso sangrar a população. É certo, há as pestes, os suicídios, as penas capitais, há sempre aqueles que se desafiam para um duelo, ou a quem apraz cavalgar por bosques e pradarias até partirem o pescoço; ouvi falar de cavalheiros ingleses que vão nadar ao mar e, naturalmente, morrem afogados ... Mas não basta. As guerras são o alívio mais eficaz e natural que se possa desejar para refrear o crescimento dos seres humanos ... Mas é necessário encontrar gente que tenha vontade de fazer a guerra ... Assim, são indispensáveis aqueles como Nievo, Abba ou Bandi, desejosos de se lançarem em frente debaixo da metralha ...
Enfim, ainda que não me agradem, temos necessidades de almas belas."
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"A esta terra, onde, desde há séculos, nada acontece, chegou Garibaldi com os seus. Não é que a gente daqui seja partidária dele, nem que esteja ainda pelo rei que Garibaldi está a destronar. Estão simplesmente embriagados pelo facto de ter acontecido qualquer coisa de diferente. E cada um interpreta a diferença à sua maneira"
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"Os artistas, mesmo de longe, são isuportáveis, olham em volta para perceber se nós os estamos a reconhecer"

quarta-feira, junho 08, 2011

Distribuição da riqueza criada

Ouço dizer que no nosso país a desigualdade social é das maiores da União Europeia. É um tema que me interessa. Tenho a impressão de que uma das formas de melhorar o nível de vida dos portugueses, nestes tempos de aperto, é melhorar os salários mais baixos à custa dos mais altos. Como digo, é apenas uma impressão. Preciso de números.

domingo, junho 05, 2011

Tiros ao lado

A minha incapacidade de ler a mente dos portugueses, no que respeita ao sentido de voto, tem sido sistematicamente evidenciada. Prometo continuar.

Carlos Moedas

Boas notícias para a cidade e para a região

Indecisão

Faltam minutos para saber o resultado da votação e ainda não sei que resultado me deixa satisfeito.

quarta-feira, junho 01, 2011

Ritmo impossível

Arranque extraordinário com média de duas pérolas a cada página.
"Aos alemães conheci-os, e até trabalhei para eles: o mais baixo nível de humanidade concebível. Um alemão produz, em média, o dobro das fezes de um francês. Hiperactividade da função intestinal em prejuízo da cerebral, que demonstra a sua inferioridade fisiológica"
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"Consideram-se [ os Alemães] profundos porque a sua língua é vaga, não tem a clareza da francesa e nunca diz exactamente aquilo que deveria, de modo que nenhum alemão sabe alguma vez aquilo que queria dizer - e confunde esta incerteza com profundidade"
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"Porém, compreendi que, para levar um francês a reconhecer uma tara da sua gentalha, basta falar-lhe mal de um outro povo, como quem diz «nós, polacos, temos este ou aquele defeito», e, uma vez que não querem ficar atrás de ninguém, nem mesmo no que é mau, logo reagem com «oh, não, aqui em França somos piores», e vá de dizer mal dos franceses até que se dêem conta de que foram apanhados na armadilha"
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"O italiano não é de fiar ... coerente só no mudar de bandeira conforme o vento"

Umberto Eco, "O Cemitério de Praga"